terça-feira, 24 de janeiro de 2012

DESTINOS



Uma das grandes preocupações que assiste ao sistema instalado, que apelidam de democracia, é a não responsabilização de ninguém, nem pelo que fazem e, muito menos, pelo que não fazem, enquanto detêm as rédeas apetitosas e pegajosas do poder. Estes energúmenos, ao deixarem estas cadeiras têm logo à mão outros assentos, em cargos directivos, principescamente remunerados, na expectativa de consigo levarem conhecidas e necessárias influências. Os outros guardarão, no congelador do tempo, para se não estragarem, somadas raivas, prontas a utilizar à menor subida de temperatura.
Nesta cadeia hierárquica, os políticos que vão chegando à ribalta deste teatro, de tantos fantoches, fazem tudo para agradar às velhas raposas, na segura convicção de, mais tarde, lhes suceder no reino, num emaranhado de ligações, perigosamente clandestinas, que os servem, eternizando compadrios.
O português deveria ser um homem de estopim pronto, em vez de navegar em repetidos brandos costumes. À chapada recebida na face esquerda, em vez de oferecer a direita, deveria, antes, seguir o exemplo do famoso Padre Rocha, de Eça de Queirós, na carta a Teófilo de Braga, e atirar-se aos adversários para os rachar a meio. Por mais absurdo que pareça, quando um barco se afunda, a inocência não salva ninguém.
Para os outros, ao contrário de todos aqueles que usaram as divisas do poder, ser português, implica ter de provar saber fazer, quinhentas vezes seguidas, uma coisa bem feita e, mesmo assim, ter de suportar que lhe apontem bastos defeitos. É difícil ser homem, por aqui.
Não são lúcidas, nem ingénuas, as nomeações para a EDP e para as Águas de Portugal. Passos Coelho ou indicar ou deixar passar velhos amigos para altíssimos cargos destas empresas, imoral e principescamente remunerados, não só está a imitar José Sócrates e companhia, numa atitude relapsa, como o supera em mediocridade e ainda a dizer a todos os portugueses de que muito pouco valerão os colossais esforços pedidos, porque o estado, por mais que o pintem, não mudará nunca.
Agora que apenas cinquenta e seis por cento dos portugueses acreditam na democracia é legítimo temer pelo seu fim, se não for vassourada toda esta gente que, anos a fio, têm preservado quintais, na mais que requintada e repetida incompetência. A democracia, em vez de um ambiente de eleitos, de latos e diversificados interesses, é hoje um emaranhado de teias, de interesses sombrios, onde só os predadores sobrevivem, um conjunto de ditadores que tudo e todos cilindram.
Há passados que nos honram e outros que nem por isso, mas, o que não tem passado, não tem presente, nem futuro.

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