Uma das grandes preocupações que assiste ao sistema instalado, que apelidam de democracia, é a não responsabilização de
ninguém, nem pelo que fazem e, muito menos, pelo que não fazem, enquanto detêm
as rédeas apetitosas e pegajosas do poder. Estes energúmenos, ao deixarem estas
cadeiras têm logo à mão outros assentos, em cargos directivos, principescamente
remunerados, na expectativa de consigo levarem conhecidas e necessárias
influências. Os outros guardarão, no congelador do tempo, para se não estragarem,
somadas raivas, prontas a utilizar à menor subida de temperatura.
Nesta cadeia hierárquica, os políticos que vão
chegando à ribalta deste teatro, de tantos fantoches, fazem tudo para agradar
às velhas raposas, na segura convicção de, mais tarde, lhes suceder no reino,
num emaranhado de ligações, perigosamente clandestinas, que os servem,
eternizando compadrios.
O português deveria ser um homem de estopim pronto, em
vez de navegar em repetidos brandos costumes. À chapada recebida na face
esquerda, em vez de oferecer a direita, deveria, antes, seguir o exemplo do
famoso Padre Rocha, de Eça de Queirós, na carta a Teófilo de Braga, e atirar-se
aos adversários para os rachar a meio. Por mais absurdo que pareça, quando um
barco se afunda, a inocência não salva ninguém.
Para os outros, ao contrário de todos aqueles que
usaram as divisas do poder, ser português, implica ter de provar saber fazer,
quinhentas vezes seguidas, uma coisa bem feita e, mesmo assim, ter de suportar
que lhe apontem bastos defeitos. É difícil ser homem, por aqui.
Não são lúcidas, nem ingénuas, as nomeações para a EDP
e para as Águas de Portugal. Passos Coelho ou indicar ou deixar passar velhos
amigos para altíssimos cargos destas empresas, imoral e principescamente
remunerados, não só está a imitar José Sócrates e companhia, numa atitude
relapsa, como o supera em mediocridade e ainda a dizer a todos os portugueses
de que muito pouco valerão os colossais esforços pedidos, porque o estado, por
mais que o pintem, não mudará nunca.
Agora que apenas cinquenta e seis por cento dos
portugueses acreditam na democracia é legítimo temer pelo seu fim, se não for
vassourada toda esta gente que, anos a fio, têm preservado quintais, na mais
que requintada e repetida incompetência. A democracia, em vez de um ambiente de
eleitos, de latos e diversificados interesses, é hoje um emaranhado de teias, de
interesses sombrios, onde só os predadores sobrevivem, um conjunto de ditadores
que tudo e todos cilindram.
Há passados que nos honram e outros que nem por isso,
mas, o que não tem passado, não tem presente, nem futuro.
